Articulação da UNICAFES fortaleceu a negociação que garantiu à Coopirb remuneração adicional pela conservação da floresta na Terra Indígena Rio Branco

A castanha-da-amazônia coletada por povos indígenas da Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, alcançou um marco inédito na safra 2025/2026: além do valor de mercado, a produção passou a ser remunerada por meio de pagamento por serviços ambientais (PSA), reconhecendo o papel das comunidades na conservação da floresta, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos ecossistemas.

O resultado nasceu da parceria entre a Cooperativa dos Povos Indígenas do Rio Branco (Coopirb) e a empresa Castanhas Ouro Verde Importação e Exportação Ltda., construída no âmbito do projeto NewCast, coordenado pela Embrapa. A União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (UNICAFES) atuou no apoio às negociações junto à empresa, fortalecendo o diálogo comercial e ampliando a representação da cooperativa indígena ao longo de todo o processo de comercialização. Esse acompanhamento integrou as ações do Programa Mais Gestão em Rondônia, que oferece assessoria à gestão e ao fortalecimento organizacional das cooperativas da agricultura familiar, contribuindo para qualificar a gestão comercial e a organização produtiva da Coopirb.

Uma conquista do cooperativismo

Para a UNICAFES, a experiência evidencia o papel estratégico das cooperativas na organização da produção e na ampliação do acesso a mercados. Ao reunir a produção das comunidades, padronizar procedimentos e fortalecer a gestão comercial, a Coopirb ampliou sua capacidade de negociação e conseguiu transformar a qualidade do produto e o valor ambiental do território em ganho concreto para as famílias extrativistas.

Segundo o engenheiro florestal Matheus Favaro Moreira, responsável pelo acompanhamento técnico, o resultado só foi possível porque a organização social caminhou junto com o rigor técnico. “O pagamento por serviços ambientais mostra que é possível remunerar a floresta em pé sem abrir mão da qualidade. A adoção das boas práticas, a estruturação da comercialização e o fortalecimento da cooperativa foram o que permitiram transformar a conservação em renda para as famílias”, afirma. Para ele, o papel da UNICAFES é justamente consolidar essa base organizativa: “Quando a cooperativa está forte, os povos indígenas ganham autonomia para negociar em condições mais justas e para decidir coletivamente sobre o uso dos recursos gerados no próprio território.”

Nesta safra, foram comercializadas cerca de sete toneladas de castanha-da-amazônia por meio da cooperativa, com pagamento adicional relacionado ao PSA. O contrato entre a Coopirb e a Castanhas Ouro Verde envolve comunidades de diferentes etnias em uma área de aproximadamente 236 mil hectares e prevê o repasse de um valor adicional de 20% à organização indígena, como reconhecimento pelos serviços ambientais prestados.

Esses recursos são geridos coletivamente e podem ser aplicados em ações comunitárias, como infraestrutura, saúde, educação, fortalecimento cultural e melhoria das condições de produção. Dessa forma, parte do valor gerado pela cadeia produtiva permanece nos territórios e beneficia diretamente quem coleta e conserva.

Qualidade que vem das boas práticas

A valorização do produto também está ligada à adoção da tecnologia de Boas Práticas para a produção de castanha-da-amazônia, recomendada pela Embrapa. As orientações acompanham todas as etapas, da coleta ao transporte, passando por lavagem, seleção, pré-secagem e armazenamento, reduzindo perdas e evitando contaminações.

Segundo o extrativista indígena Dalton Tupari, a aplicação dessas práticas foi decisiva para a negociação. Ele destaca que as recomendações ajudam do início ao fim do processo e agregam um diferencial de qualidade a um produto que já carrega o valor da floresta conservada. Para ele, o retorno econômico reforça o sentido do trabalho das comunidades: coletar, preservar a natureza e receber um valor diferenciado por isso mostra que conservar a floresta também gera renda para as famílias.

Pesquisa, conhecimento tradicional e mercado

A pesquisadora da Embrapa Rondônia Lúcia Wadt lembra que o apoio aos povos Tupari e Aruá da Terra Indígena Rio Branco é construído desde 2015, inicialmente por meio de iniciativas ligadas ao Pacto das Águas e, mais recentemente, ao NewCast. Para ela, a safra 2025/2026 representa a colheita desse trabalho de longo prazo, com a valorização do produto pela qualidade e pelo serviço ambiental prestado pelas comunidades.

A coordenadora do NewCast e pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Patrícia da Costa, reforça que a integração entre tecnologia, organização social e mecanismos de valorização econômica é essencial para fortalecer as organizações locais e reconhecer os serviços ambientais das comunidades que conservam a floresta.

Um modelo para a sociobiodiversidade

Com validade para a safra 2025/2026, o acordo entre a Coopirb e a Castanhas Ouro Verde representa um avanço concreto na construção de modelos de negócio sustentáveis para produtos da sociobiodiversidade. A experiência demonstra que a combinação entre cooperativismo, tecnologia, mercado estruturado e pagamento por serviços ambientais pode ampliar a renda das comunidades, melhorar a qualidade do produto e valorizar os territórios indígenas da Amazônia.

Mais do que comercializar castanha, a iniciativa reconhece o protagonismo dos povos indígenas na conservação da floresta e comprova que produzir com qualidade e manter a Amazônia em pé podem, sim, caminhar juntos.


Matéria produzida pela UNICAFES Rondônia, com base em informações do projeto NewCast/Embrapa. Fotos: Matheus Favaro

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